O Rio Grande, na divisa entre Minas Gerais e São Paulo, é considerado por muitos pescadores como o “santuário das piaparas”. Suas águas límpidas, corredeiras estratégicas e a abundância de alimento criam o cenário perfeito para a reprodução e o desenvolvimento de dois dos peixes mais esportivos e técnicos de nossa bacia: a Piapara e o Piau-Açu.
Pescar nessas águas não é apenas uma questão de sorte; é uma ciência que envolve paciência, precisão e o conhecimento dos hábitos dessas espécies. Se você busca sentir o estalo da linha e a força bruta desses “tratores” de água doce, este guia detalhado é o seu ponto de partida.
O Comportamento das Piaparas e Piaus no Rio Grande
Para ter sucesso no Rio Grande, o pescador precisa entender a diferença sutil entre seus alvos. A Piapara é conhecida por sua “batida” sutil e desconfiada, enquanto o Piau costuma ser mais agressivo, porém igualmente astuto.
No trecho que divide MG e SP, esses peixes buscam áreas com cascalho no fundo e uma correnteza moderada. Eles são peixes de fundo, que vasculham o leito do rio em busca de sementes, pequenos crustáceos e algas. A transparência das águas do Rio Grande exige que o pescador seja discreto: barulhos excessivos no barco ou equipamentos muito grosseiros podem afugentar o cardume antes mesmo do primeiro arremesso.

Equipamento Ideal: Sensibilidade é a Chave
Diferente da pesca de grandes couros ou de tucunares, a pesca de piapara exige um equipamento específico voltado para a sensibilidade. Você precisa sentir o peixe “provando” a isca antes de realizar a fisgada.
- Varas: Utilize varas de ação moderada a lenta, com pontas extremamente finas (conhecidas como varas de bambu ou de fibra de vidro maciça), com comprimento entre 1,50m e 1,80m. A ponta flexível evita que o peixe sinta a resistência da vara e solte a isca.
- Carretilhas e Molinetes: Devem ter um bom ajuste de fricção. Como a piapara costuma dar arrancadas fortes a favor da correnteza, o equipamento precisa liberar linha de forma fluida.
- Linhas: As de monofilamento entre 0,30mm e 0,40mm são preferidas pela sua elasticidade, que ajuda a amortecer os trancos. Se optar por multifilamento, utilize um bom líder de fluorcarbono para garantir a invisibilidade.
As Melhores Iscas e o Segredo do Cevador
No Rio Grande, a regra de ouro é: quem não ceva, não pesca. A ceva é o que mantém o peixe próximo ao seu barco. O uso de milho azedo, farelo de arroz e soja é essencial para criar um rastro de odor e sabor que atrai as piaparas de longas distâncias.
Quanto às iscas de anzol, as mais produtivas na região são:
- Milho Verde ou Azedo: O clássico que nunca falha.
- Caranguejo: A isca preferida para os grandes exemplares, especialmente nos períodos de seca.
- Minhocoçu: Excelente para dias em que o peixe está mais manhoso.
- Massas Caseiras: Receitas que levam queijo, farinha de trigo e essências costumam apresentar ótimos resultados.
Técnicas de Fisgada e Leitura do Rio
A maior dificuldade do pescador iniciante no Rio Grande é identificar o momento exato da fisgada. A piapara raramente “carrega” a isca de uma vez. Ela costuma dar pequenos toques, as famosas “beliscadas”.
A técnica recomendada é manter a linha levemente esticada, mas sem tensão excessiva. Quando sentir os toques repetidos, aguarde o momento em que a ponta da vara fizer uma curvatura contínua e realize uma fisgada curta e firme. No Rio Grande, devido à profundidade e correnteza, o uso de chumbadas do tipo “azeitona” correndo na linha é fundamental para que a isca permaneça no fundo sem que o peixe sinta o peso do chumbo.
Localização Estratégica: Onde encontrar os Cardumes
O Rio Grande possui trechos variados, desde as áreas de reservatório até as regiões abaixo das barragens (respeitando sempre as áreas de exclusão legal). Os melhores pontos estão localizados em:
- Curvas de Rio: Onde a correnteza deposita alimento naturalmente.
- Locais de Cascalho: O fundo de pedra e cascalho é o habitat favorito desses peixes.
- Proximidade de Estruturas: Pilares de pontas e troncos submersos servem de abrigo e ponto de alimentação.
Fique atento à variação do nível da água. No Rio Grande, as hidrelétricas podem alterar o fluxo rapidamente, e entender como o peixe se move nessas mudanças é o diferencial entre um dia de balde vazio e um dia de fotos memoráveis.
Para elevar o nível da sua pescaria no Rio Grande, não basta apenas técnica; o equipamento certo é o que separa uma história de pescador de um troféu na mão. Especialmente na pesca de Piaparas e Piaus, a precisão do arremesso e a resistência aos “trancos” na correnteza são fundamentais.

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